Como implementar o intraempreendedorismo em grandes corporações?

‎Por Fabio Nogi

No cenário empresarial contemporâneo, marcado por mudanças rápidas e avanços tecnológicos constantes, as organizações precisam inovar para permanecer competitivas. Nesse contexto, o intraempreendedorismo surge como uma estratégia poderosa, permitindo que empresas explorem o potencial criativo de seus próprios colaboradores para desenvolver novas soluções, serviços e produtos.

Mais do que uma tendência, o intraempreendedorismo representa uma mudança cultural nas organizações, incentivando o protagonismo dos funcionários e a colaboração interna para a geração de valor. Mas como implementar essa abordagem de maneira eficaz?



O que é intraempreendedorismo e por que ele é importante?

O termo intraempreendedorismo (ou empreendedorismo corporativo) descreve o ato de fomentar e apoiar iniciativas empreendedoras dentro de uma organização. Ele permite que colaboradores atuem como empreendedores, propondo soluções inovadoras que podem gerar impacto positivo para a empresa e seus clientes.

Estudos da McKinsey indicam que empresas que se destacam em capacidades essenciais associadas à inovação tendem a ter um crescimento rentável superior à média do setor. Essas empresas, denominadas “innovative growers”, combinam crescimento e inovação para criar valor duradouro. Elas se concentram em aspiração, ativação e execução para superar seus concorrentes. Isso porque o intraempreendedorismo cria um ecossistema de experimentação contínua, reduzindo o tempo de resposta às mudanças de mercado e aumentando a agilidade organizacional. Essa abordagem impacta diretamente a retenção de talentos. Quando os funcionários se sentem valorizados e sabem que suas ideias podem se transformar em projetos concretos, o engajamento aumenta, reduzindo os índices de turnover.

Além disso, a McKinsey destaca que empresas que integram prioridades ambientais, sociais e de governança (ESG) em suas estratégias de crescimento superam seus pares. Essas empresas “de desempenho triplamente superior” registraram dois pontos percentuais de retorno total aos acionistas (RTA) anual acima daquelas que tiveram desempenho superior apenas nas métricas financeiras.



Os pilares de uma cultura de intraempreendedorismo

Para implementar com sucesso uma cultura de intraempreendedorismo, as empresas precisam alinhar estratégias, recursos e liderança. Aqui estão os principais pilares que sustentam essa transformação:

Alinhamento com os objetivos estratégicos

O intraempreendedorismo só traz resultados significativos quando está diretamente ligado à estratégia da empresa. Colaboradores precisam entender como suas ideias e projetos contribuem para o cumprimento das metas organizacionais.

Empresas como a Seguros Unimed têm utilizado programas como o “Ideias de Valor: Desafio da Inovação” para conectar a criatividade dos colaboradores às demandas reais do negócio. Na edição de 2023 desse programa, 53 ideias foram submetidas e refinadas, resultando em quatro projetos acelerados ao longo de 2024 por meio de squads dedicadas ou parceria com startups. Todos os projetos acelerados contaram com a liderança e participação ativa dos próprios colaboradores, contribuindo com o desenvolvimento de competências e habilidades que fortalecem o capital intelectual da organização. Já em 2024, tivemos 65 ideias submetidas e mais de 20 horas de capacitação até o final do ano, chegando a três ideias finais que serão aceleradas em 2025. Também lançamos um programa de intraempreendedorismo dedicado para nossa força de vendas, incluindo os funcionários que atuam em nossos escritórios regionais em todo o território nacional. Essas iniciativas demonstram como um planejamento claro e a integração com a estratégia pode transformar boas ideias em soluções práticas e valiosas mediante o engajamento dos colaboradores.



Capacitação contínua

Para que os colaboradores possam propor e liderar projetos inovadores, é essencial investir em capacitação. Isso inclui treinamentos em metodologias ágeis, design thinking e análise de dados, além de oferecer ferramentas e tecnologias que permitam a prototipagem e o desenvolvimento de soluções.

Empresas como a Vale e a Cielo têm investido em capacitação prática por meio de programas internos de inovação e mentorias com especialistas do setor. Essas ações não apenas desenvolvem habilidades técnicas, mas também criam uma mentalidade orientada para a solução de problemas.



Ambiente seguro para a experimentação

A inovação nasce da experimentação – e, muitas vezes, do erro. Portanto, criar um ambiente em que os colaboradores se sintam à vontade para testar novas ideias sem medo de represálias é essencial. Isso pode ser feito por meio da implementação de ciclos curtos de experimentação, como a metodologia do MVP (Produto Mínimo Viável), que permite testar soluções em pequena escala antes de expandi-las.

No caso da Seguros Unimed, os projetos finalistas de seu programa de intraempreendedorismo receberam orçamento pré-aprovado para a criação de protótipos e execução de pilotos. Esse tipo de incentivo mostra que a empresa valoriza a inovação e está disposta a investir em novas ideias, mesmo que elas ainda não estejam completamente validadas.



Engajamento da liderança

Líderes desempenham um papel fundamental na criação de uma cultura de intraempreendedorismo. Eles precisam atuar como patrocinadores das iniciativas, oferecendo suporte estratégico, recursos e orientação aos colaboradores.

Um exemplo é a atuação de líderes que participam ativamente como mentores em programas de inovação, como ocorreu no caso dos projetos da Seguros Unimed. A presença da liderança reforça o compromisso organizacional com a inovação e inspira os colaboradores a se engajarem.



Desafios do intraempreendedorismo e como superá-los

Embora o intraempreendedorismo ofereça benefícios claros, sua implementação pode ser desafiadora devido a barreiras comuns enfrentadas pelas organizações. Um dos principais obstáculos é a resistência à mudança, especialmente em empresas com culturas organizacionais mais tradicionais. Muitos colaboradores podem hesitar em adotar novas práticas, temendo rupturas no ambiente de trabalho ou questionando a efetividade das iniciativas propostas. Para superar esse desafio, é essencial investir em comunicação transparente, destacando os resultados tangíveis obtidos por programas de inovação anteriores. Demonstrar o valor da mudança é uma estratégia poderosa para engajar a equipe e reduzir resistências.

Outro entrave significativo é a falta de recursos financeiros. De acordo com um estudo da ACE Cortex, divulgado pela Época Negócios, a limitação de orçamento é um dos principais obstáculos à inovação nas empresas. A pesquisa revelou que, para 43,8% dos respondentes, a falta de governança é o principal entrave, seguida pelo tempo de execução (42,2%) e pela ausência de métricas bem definidas (38,3%). Além disso, 36,7% apontaram equipes destreinadas como um desafio significativo. Sem recursos suficientes, muitas iniciativas acabam sendo engavetadas ou subdimensionadas. Para contornar essa dificuldade, as empresas podem criar orçamentos dedicados exclusivamente ao intraempreendedorismo, além de buscar parcerias estratégicas com startups e instituições de pesquisa. Essas colaborações não apenas ampliam os recursos disponíveis, mas também trazem novas perspectivas e expertise para os projetos.

A falta de pessoal qualificado também surge como um desafio relevante. Empresas que não investem na capacitação de suas equipes encontram dificuldades para gerar ideias que sejam, ao mesmo tempo, viáveis e escaláveis. Para enfrentar esse cenário, é fundamental desenvolver trilhas de aprendizado contínuo, oferecendo plataformas online, workshops e mentorias que promovam o crescimento técnico e criativo dos colaboradores. Com uma equipe mais bem preparada, a geração e execução de ideias inovadoras tornam-se muito mais eficazes.

Ao compreender e abordar esses desafios de maneira estratégica, as organizações podem criar um ambiente propício ao intraempreendedorismo, maximizando seu potencial de inovação e crescimento sustentável.



Casos de sucesso e aprendizados para o Brasil

O exemplo da Associação Fraunhofer na Alemanha é emblemático. Como líder em pesquisa aplicada, a Fraunhofer conecta todos os níveis de maturidade tecnológica (Technology Readiness Levels – TRLs), ajudando ideias a superarem o “vale da morte” e se tornarem soluções comercializáveis.

Essa abordagem de colaboração entre pesquisa e indústria poderia inspirar o Brasil a criar ecossistemas de inovação mais robustos. Centros de pesquisa, como o Fraunhofer, mostram que parcerias entre empresas, universidades e governos podem alavancar o intraempreendedorismo, resultando em tecnologias que geram valor econômico e social.

No Brasil, algumas empresas já começam a trilhar esse caminho, mas ainda há espaço para maior integração entre os atores do ecossistema de inovação.

Portanto, o intraempreendedorismo é mais do que uma ferramenta de inovação – é uma estratégia para transformar a cultura organizacional, aumentando a competitividade e a resiliência das empresas. Para isso, é essencial investir em capacitação, engajamento da liderança e um ambiente que valorize a experimentação.

Ao olhar para exemplos globais e casos locais fica claro que o sucesso depende da colaboração entre pessoas, processos e propósitos. Empresas que priorizam o intraempreendedorismo estão mais preparadas para enfrentar os desafios do futuro e prosperar em um mercado cada vez mais dinâmico e em acelerada transformação.

Fabio-Nogi

CONSELHEIR@

Fabio Nogi

Fabio Massaharu Nogi atua como Head de Inovação (Stormia) e Superintendente de Odontologia na Seguros Unimed. Possui Mestrado em Odontokogia Social e 6 MBAs com ênfases distintas (Business Innovation, Gestão Atuarial, Gestão de Pessoas, Gestão de Vendas, Gestão de Negócios em Saúde e Inteligência de Mercado).

Professor de cursos de MBA e pós-graduação. Diretor do Sinog (Associação Brasileira de Planos Odontológicos). Conselheiro Consultivo do IBRAVS (Instituto Brasileiro de Valor em Saúde). Mentor de Startups Black Belt pela 100 Open Startups. Foi eleito um dos Top 10 executivos de destaque em tecnologia e inovação em 2023 pela 7th Experience.

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