O MOLHO SECRETO DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

‎Por Giuliane Paulista

Todo mundo quer usar Inteligência Artificial, mas poucos estão dispostos a preparar o molho secreto que faz toda a diferença. Não é a tecnologia em si que gera valor, mas uma cultura analítica forte que sustenta seu uso inteligente.
Quando eu era criança, trabalhava na empresa do meu pai, uma pequena confecção de uniformes perto da nossa casa.
Todas as manhãs, antes da escola, eu passava um tempo por lá, e foi ali que tive meu primeiro contato com o mundo empre-
sarial. Naquela época, não havia computadores, internet nem celulares. Meus principais instrumentos de trabalho eram um
telefone PABX e uma máquina de escrever Remington. Era o início dos anos 90, o Brasil enfrentava hiperinflação e uma das minhas funções era pesquisar preços de insumos, ligar para fornecedores, organizar os dados e repassá-los ao setor de
compras, que ajustava a tabela de preços. Um trabalho manual, mas essencial, pois permitia acompanhar a variação dos custos e
entender, com precisão, como cada matéria-prima impactava o preço final dos produtos.
Décadas depois, muita coisa mudou. Novas tecnologias transformaram processos, automatizaram tarefas e aumen- taram exponencialmente nossa capacidade de gerar e armazenar dados. Mas uma coisa permanece: a importância dos dados para a tomada de decisão nunca foi tão grande.
Hoje, o problema não é mais falta de dados, é o excesso. Estima-se que, em 2025, o mundo terá 181 zettabytes de dados digitais (IDC, 2024[1]). Para comparação, um único zettabyte é equi-valente a 1,000,000,000,000,000,000,000 (1021) bytes, ou, para facilitar a compreensão, cerca de 250 bilhões de DVDs. Isso dá
uma noção da enorme quantidade de dados disponíveis hoje.

O MOLHO SECRETO DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Apesar disso, menos de 10% desses dados são utilizados. A maior parte é composta por dados não estruturados, como vídeos, imagens, textos e logs. Temos ferramentas poderosas para análise, mas ainda nos falta algo essencial: pensamento analítico.

A ERA DA INFOXICAÇÃO EXIGE NOVOS LÍDERES

Vivemos tempos de infoxicação e desinformação. O papel da liderança analítica é filtrar o que é confiável, aplicável e relevante. É aqui que entra o verdadeiro diferencial competitivo: a cultura analítica, o molho secreto que sustenta qualquer solução de IA.
Empresas orientadas por dados integram tecnologias, rompem fronteiras e capturam oportunidades com mais agilidade. Seus líderes combinam lógica e sensibilidade, atuando com ambidestria. Empresas orientadas por dados conseguem integrar múltiplas tecnologias, romper fronteiras setoriais e explorar novas oportunidades com mais agilidade. Seus líderes atuam com
ambidestria: combinando o raciocínio técnico com habilidades humanas para gerar impacto real.
Segundo a McKinsey, empresas data-driven têm:

  • 23x mais chances de conquistar clientes,
  • 6x mais chances de retê-los,
  • 19x mais chances de serem lucrativas.
    Ainda assim, só 35% das lideranças usam dados de
    forma eficaz.
    COMPETÊNCIAS ANALÍTICAS VÃO ALÉM DO TÉCNICO
    O World Economic Forum destaca que as habilidades mais
    importantes para 2030 são:
  • Pensamento analítico e sistêmico
  • Criatividade
  • Resiliência, flexibilidade e agilidade
  • Influência social e liderança
  • Motivação, autoconhecimento e curiosidade
  • Aprendizado contínuo
  • Letramento em IA e dados

Essas competências combinam análise, adaptação e propósito. Dados só geram valor quando interpretados por pessoas preparadas para pensar criticamente.

OS PILARES DA CULTURA ANALÍTICA
Maturidade analítica se constrói a partir do conhecimento, do uso e da geração de valor com dados e IA. Para isso, três pilares são fundamentais:

  1. Processos: clareza e eficiência na gestão de dados
    Sem processos definidos, dados viram ruído. É preciso

garantir qualidade, acesso e uso efetivo no dia a dia. A to-
mada de decisão precisa ser baseada em informação — e

não em hierarquia.

  1. Cultura: pessoas no centro da transformação
    Tecnologia é meio. A cultura se consolida quando dados
    fazem parte da rotina. Isso exige capacitação contínua, times
    multidisciplinares e incentivo à experimentação. Também exige
    métricas claras de maturidade analítica.
  2. Governança: confiabilidade e escalabilidade
    A governança não deve ser burocrática. Ela conecta dados à estratégia, garante qualidade, segurança, ética e possibilita escalar a IA com segurança.

BENEFÍCIOS TANGÍVEIS DA CULTURA ANALÍTICA

Organizações maduras em dados experimentam:

  • Decisões mais precisas
  • Eficiência operacional
  • Redução de custos (até 30%, BCG)
  • Crescimento de receita (até 2x mais provável)
  • Melhor experiência do cliente
  • Vantagem competitiva duradoura
    CONCLUSÃO
  • A cultura analítica não é só uma competência, é o
    novo DNA das empresas de sucesso.
  • Em um mundo inundado por dados, só vence quem
    transforma informação em estratégia.
  • Dados sem estratégia são apenas números. Estratégia
    sem dados é suposição.
  • Tecnologias são ferramentas. Pessoas são protagonistas.

Em um mercado volátil e cada vez mais competitivo, dados são o ativo mais estratégico que uma empresa pode ter, desde
que sejam bem utilizados.
A transformação digital real não é apenas técnica é cultural. E os líderes que compreendem isso não apenas acompanham o futuro: eles o constroem.

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CONSELHEIR@

Giuliane Paulista

Top Voice LinkedIn em Inovação Tecnológica. Executiva de IA e Analytics no Banco do Brasil, mais de 25 anos de experiência no mercado financeiro com passagem em várias áreas de negócio, estratégia e risco. Graduada em Economia, com pós em Sustentabilidade, Mestrado em Marketing Estratégico, formação em IA no MIT e Inovação e Tecnologia em Stanford. Conselheira Certificada e membro de Comitês de Assessoramento. Prêmios de inovação, experiência do cliente e métodos ágeis com projetos implementados. Apaixonada por inovação com propósito, intraempreendedorismo e mentora voluntária.