COMO ESTRUTURAR TIMES DE PRODUTO EM BANCOS DIGITAIS E PLATAFORMAS BaaS?

‎Por Rafael Panelli

A transformação digital no setor financeiro impulsionou uma reinvenção profunda na forma como produtos são concebidos, desenvolvidos e escalados. Nesse movimento, bancos digitais e plataformas de Banking as a Service (BaaS) assumem protagonismo ao oferecer soluções ágeis, modulares e personalizáveis que desafiam modelos bancários tradicionais. Para sustentar esse ritmo de inovação, a estruturação de times de produto torna-se fator crítico de sucesso. Mais do que preencher funções, trata-se de desenhar uma arquitetura organizacional orientada à entrega contínua de valor.

O ponto de partida é compreender o papel estratégico do time de produto nesse ecossistema. Diferentemente das instituições convencionais, onde produtos financeiros seguem ciclos longos e estáticos, em bancos digitais e plataformas BaaS a evolução é contínua, guiada por dados, feedbacks em tempo real e testes constantes. Isso demanda profissionais com mentalidade ágil, domínio técnico, visão de negócio e fluência regulatória, atuando em ambientes dinâmicos e altamente supervisionados.

A composição da equipe começa pelo Product Manager (PM), mas não se limita a ele. A tríade formada por produto, tecnologia e design é indispensável. O PM conecta negócio e solução, assegurando alinhamento estratégico e foco no cliente. O Product Designer traduz essa visão em experiências intuitivas e funcionais. O Tech Lead garante que as soluções sejam escaláveis, resilientes e sustentáveis.

Essa tríade ganha tração quando inserida em processos claros e bem definidos. Em plataformas BaaS, onde modularidade e escalabilidade são princípios estruturantes, squads enxutos, autônomos e interdisciplinares tendem a ser mais eficazes. Cada squad deve validar hipóteses, lançar funcionalidades e corrigir problemas com agilidade, sempre respeitando governança, compliance e regulamentações.

A especialização é igualmente relevante. Em estruturas BaaS, múltiplas camadas de produto APIs de pagamento, onboarding digital, soluções de crédito white-label, entre outras são desenvolvidas simultaneamente. Isso requer squads dedicados a domínios específicos, com objetivos e métricas claras, mas conectados à visão sistêmica da jornada de clientes e parceiros.

A colaboração entre áreas é essencial. Estruturas matriciais que integram produto a risco, compliance, jurídico e marketing são fundamentais para mitigar riscos e assegurar entregas consistentes. A proximidade com dados torna-se mandatório: decisões devem ser guiadas por evidências.

É necessário considerar também os estágios de maturidade do produto. Em fases iniciais, o PM tende a acumular discovery, análise de dados e testes. À medida que o produto escala, surgem especializações como Product Operations, Analytics e Product Marketing, que ampliam governança e eficiência operacional.

O ambiente regulado adiciona complexidade. O PM precisa incorporar desde a concepção requisitos do Banco Central, LGPD, KYC/AML e demais normativos. Isso exige conhecimento técnico e uma cultura contínua de capacitação.

O roadmap deve estar conectado à estratégia, mas com flexibilidade para reagir a insights de mercado. Em BaaS, a interdependência com parceiros e múltiplos sistemas exige forte capacidade de orquestração. Rituais como dailies, reviews e plannings sustentam transparência, alinhamento e accountability. Execução consistente é mais determinante do que ideias disruptivas.

A liderança de produto deve atuar como catalisadora de talentos. O Head de Produto precisa garantir entregas, desenvolver líderes, promover autonomia com responsabilidade e criar um ambiente seguro para testes e aprendizados. Times de alta performance erram, aprendem e corrigem rapidamente. KPIs devem medir impacto percebido pelo cliente, não volume de entregas.

A tecnologia precisa atuar como aliada estratégica. A arquitetura técnica deve suportar deploy contínuo, testes A/B e rollback eficiente. A engenharia deve participar desde o início como cocriadora, não apenas como executora.

Além do aspecto técnico, é essencial considerar a jornada do parceiro. O sucesso depende de integrações fluidas, suporte pós-go-live, documentação de qualidade e SDKs adequados. O time de produto deve desenhar toda a experiência ponta a ponta.

Um desafio central é equilibrar inovação e estabilidade. O mercado exige velocidade, enquanto clientes exigem segurança. Saber quando acelerar e quando frear é uma competência determinante. Em BaaS, confiança é tão relevante quanto performance técnica.

Estruturar times de produto em bancos digitais e plataformas BaaS exige mais do que organogramas: requer visão estratégica, adaptabilidade e foco em valor. Nesse ecossistema, a única constante é a mudança. Prosperam os times que se organizam olhando para o futuro e não reproduzindo modelos do passado.

JORGE LUÍS CORDENONSI (4)

CONSELHEIR@

Rafael Panelli

Sou Chief Product Officer (CPO) no Bankly, responsável por liderar a estratégia e o desenvolvimento de produtos de Banking as a Service. Minha trajetória é focada em inovação no mercado financeiro e tecnologia, com experiências no Itaú, BV e Zoop, onde atuei na criação de soluções que fortalecem o ecossistema de pagamentos e serviços financeiros.

Tenho interesse em construir times fortes, desenvolver pessoas e criar produtos que gerem impacto real para clientes e parceiros. Acredito no poder das conexões para transformar negócios e sustentar um aprendizado contínuo.