Inteligência Emocional: O Desafio Estratégico das Empresas Modernas

‎Por Cris Sampaulo

Em tempos de transformação digital, volatilidade e constante reestruturação organizacional, saber lidar com as próprias emoções e com as dos outros é condição básica para manter equipes engajadas, produtivas e resilientes. Lideranças com dificuldades nesse tema estão perdendo espaço nas organizações, e em casos mais severos, representando riscos trabalhistas, reputacionais e financeiros significativos.

Já lideranças emocionalmente inteligentes são mais adaptáveis, colaborativas, produtivas e preparadas para enfrentar adversidades. Em um mundo onde as máquinas assumem cada vez mais as tarefas técnicas, são essas competências humanas que se tornarão o verdadeiro diferencial competitivo.

E considerando que passamos a maior parte do nosso tempo trabalhando, levar os desafios e relações de trabalho de forma mais leve e significativa também é um indicativo de sucesso pessoal. Afinal, não existe dinheiro no mundo que consiga comprar a paz de espírito.

Diferente das habilidades técnicas, o desenvolvimento da inteligência emocional exige introspecção, autoconhecimento, empatia, autocompaixão e maturidade – competências que costumam se desenvolver ao longo do tempo, em contextos de experiências e reflexão. Ainda é recente e pouco aplicada a educação desses temas no contexto escolar, mas sua implementação já é um avanço, porém, de maneira geral, quem está ocupando as posições de liderança hoje começou a prestar mais atenção nesse assunto a partir da pandemia.

Antes de desenvolver a resposta para a pergunta do título do meu artigo, é importante lembrar que a inteligência emocional não é algo que se “implanta” em uma organização. Ela se constrói a partir de múltiplas iniciativas que envolvem cultura, liderança, processos e práticas. Cada pequena atitude, desde uma conversa sobre performance até a forma como se resolve um conflito, contribui para a formação de um ambiente emocionalmente saudável. Por isso, mais do que lançar programas robustos, o essencial é garantir coerência entre discurso e prática no cotidiano e em cada área da empresa.

Nesse contexto, o RH assume um papel estratégico, não apenas como executor de treinamentos, mas como articulador de uma visão sistêmica sobre o comportamento humano. Cabe ao RH provocar reflexões, propor trilhas de desenvolvimento, monitorar o clima e fomentar lideranças mais conscientes de seu impacto emocional. Mas para isso, precisa ter autonomia, escuta ativa da alta liderança e acesso aos dados organizacionais que permitam decisões embasadas.

O papel da liderança, aliás, merece ser reforçado. Não se trata apenas de liderar pelo exemplo, mas também de ser facilitadora do desenvolvimento emocional da equipe. Bons líderes sabem reconhecer sinais de sobrecarga emocional, falam sobre performance com empatia, estimulam o diálogo e o conflito saudável e reconhecem as emoções de seus liderados. São eles os principais agentes de transformação em qualquer programa de inteligência emocional.

Voltando ao tema de dados, a tecnologia, embora pareça distante do tema, pode ser uma aliada poderosa. Ferramentas de “pulse surveys”, plataformas de coaching digital e aplicativos de bem-estar emocional já permitem uma abordagem mais contínua, personalizada e baseada em dados. Combinadas com ações presenciais, essas soluções ajudam a criar uma jornada mais fluida de desenvolvimento.

Sobre as ações presenciais, elas apresentam alguns desafios, como o estigma que ronda o tema e que faz com que muitos colaboradores resistam em falar sobre suas emoções com receio de serem vistos como frágeis ou vulneráveis e também o risco de a sessão virar uma exposição de lamentações ou de situações negativas que podem ter um resultado radicalmente oposto ao esperado.

A boa notícia é que tenho visto algumas práticas presenciais e coletivas funcionarem muito bem, como workshops para desenvolvimento de temas paralelos como Comunicação Empática, Assédio Físico e Moral, Microagressões no Ambiente de Trabalho e também Estudos de Caso Ao Vivo com práticas reflexivas que são os temas principais que trabalho no dia a dia da minha empresa, a Actio Desenvolvimento Humano.

O Estudo de Caso ao Vivo, conhecido no exterior como “drama-based training”, utiliza o teatro como ferramenta para reflexão, nesse método a audiência é convidada somente a assistir e debater algumas cenas relacionadas ao tema proposto. Esse método não expõe as pessoas participantes, nem as coloca para atuar com os atores profissionais. Em vez disso, causa um espelhamento e uma maneira de tratar e discutir o assunto na terceira pessoa, quem participa é capaz de observar as cenas que se assemelham ao que acontece no dia a dia de trabalho e expressar suas reflexões sem expor a si mesmo, seus colegas, sua liderança ou à sua instituição. A entrega dessa metodologia tem apresentado resultados muito poderosos e impactantes.

Também vale explorar parcerias com profissionais externos como coaches, psicólogos organizacionais e especialistas em neurociência do comportamento. Esses profissionais trazem metodologias e olhares mais profundos, capazes de ampliar a percepção dos colaboradores sobre si mesmos. A presença de um olhar neutro, externo à organização, também facilita o enfrentamento de temas delicados.

Promover espaços de escuta ativa, como grupos de afinidade ou encontros temáticos, contribui para a construção de vínculos e para o fortalecimento da cultura de acolhimento e cuidado. O simples ato de sentir-se ouvido já é um dos primeiros passos para desenvolver a própria inteligência emocional. E quando esse sentimento se torna parte da rotina da empresa, temos o tão almejado sentimento de pertencimento e os impactos positivos se espalham por todas as áreas.

Você deve estar se perguntando: “Mas como medir o resultado dessas ações?”. Em primeiro lugar, é importante lembrar que os resultados mais significativos geralmente aparecem no médio e longo prazo. O amadurecimento emocional não acontece da noite para o dia. Por isso, as empresas que querem de fato desenvolver essa competência precisam adotar uma visão de longo prazo e manter a consistência dos programas mesmo diante de mudanças de liderança ou prioridades estratégicas.

É necessário criar métricas que combinem feedback 360 graus, autoavaliações e acompanhamento qualitativo dos comportamentos observados no dia a dia, ainda que isso demande mais tempo e complexidade.

Mas vale dizer que os processos de avaliação de desempenho merecem uma atenção especial, pois empresas que penalizam emoções ou que valorizam apenas resultados objetivos tendem a inibir comportamentos emocionalmente saudáveis. É preciso revisar os critérios de avaliação para incluir indicadores de comportamento colaborativo, capacidade de ouvir, resolver conflitos e lidar com pressão.

Outro desafio importante para fomentar e reconhecer resultados, está na forma como algumas lideranças compreendem o papel da inteligência emocional. Existem líderes que ainda enxergam essas habilidades como “suavizantes”, algo periférico ou reservado para áreas como o RH ou atendimento ao cliente. Isso limita a adesão dos próprios líderes às práticas e treinamentos que envolvem autogestão emocional, comunicação empática e escuta ativa. O desenvolvimento emocional precisa começar do topo. Quando os líderes demonstram na prática comportamentos emocionalmente saudáveis, criam um ambiente em que as pessoas se sentem mais seguras para também praticá-los.

Portanto, superar os desafios no desenvolvimento da inteligência emocional exige mais do que boas intenções. Requer visão sistêmica, cultura de confiança, lideranças engajadas e consistência nas ações. É um processo contínuo, mas absolutamente necessário para construir empresas mais humanas, sustentáveis e preparadas para os desafios do futuro.

Cris-Sampaulo

CONSELHEIR@

Cris Sampaulo

Contadora com pós-graduação em Gestão Emocional nas Organizações pela Faculdade Israelita Albert Einstein, Cris é professora certificada do CEB – Cultivating Emotional Balance e cofundadora da Actio Desenvolvimento Humano, consultoria que integra artes cênicas e metodologias educacionais para temas organizacionais. É também professora convidada da The School of Life Brasil, atuando nos temas de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI).

Com mais de 10 anos de experiência em RH e Engajamento Corporativo, Cris liderou iniciativas de DEI para a América Latina no Goldman Sachs, onde criou programas como a Iniciativa LIFT (foco em estudantes negros de baixa renda), Dn’A Women (foco em estudantes universitárias) e a Embrace Initiative, hoje Potência Trans, coordenado pela Actio DH.

Possui certificações como Designer de Aprendizagem, Instrutora Master e facilitadora em Democracia Profunda.

A Cris faz parte do Conselho Consultivo da ONG WILL – Women in Leadership in Latin America e também e Conselheira da REDE Líderes Digitais.