Sempre pegando um “gancho” no desenvolvimento já feito em nossas postagens anteriores, trago aqui algumas percepções ao que desenvolvi antes, quando afirmei da falta de princípios de gestão de projetos na aplicação apressada de tecnologias, no momento que vivemos.
A atração pela tecnologia sempre tem provocado mais acidentes que sucessos rápidos. Infelizmente, a adoção da “tecnologia pela tecnologia” leva, quando muito a isso mesmo: o resultado tecnológico. Frio, voltado para “dentro”, sem repercussão de negócios, sem atender aos objetivos de empresas, organizações, nos seus negócios. De que adianta ter-se uma base tecnológica de excelência sem o uso otimizado, sem o conhecimento dos que aplicam e usam e sem ter a condição de ser mantida sempre atualizada e agregando valor nas negociações da empresa?
Pensei ser esta uma visão reservada, até conservadora e limitada a um espaço geográfico de negócios restrito, consequentemente sem considerar outras experiências. Tirei proveito da habitual jornada de trabalho no exterior e aí pude constatar sinais similares aos de algumas de nossas iniciativas problemáticas – quase uso a palavra “projeto”, mas não caberia nestes casos – onde a onda tecnológica passou sobre as demandas, o conhecimento e a estrutura de negócios das organizações.
Em postagem anterior, já tive oportunidade de citar a gestão de projetos como campo de fundamento essencial, de apoio contextual, para lidar com o desejo de aplicar recursos tecnológicos para novas formas de negociar valor e posicionar estratégias em mercado. Na consistência de elaborar projetos de maneira gerenciável, temos mais condições de atingir objetivos estratégicos e, claro, mesmo em situações de limite lidar com os riscos inerentes a problemas, fatos inesperados e falhas na condução dos próprios projetos.
Aqui pretendo abordar um outro fato, colocado também por interlocutores nas jornadas fora do Brasil e que já tive oportunidade de encarar quando no exercício de uma consultoria. É o caso de buscarmos, com a inserção de uma nova tecnologia, “quebrarmos a curva de valor”, numa oferta na direção de um “Oceano Azul”, um posicionamento estratégico de valor de ruptura, inédito, de completa quebra com o que existe. A argumentação de aparente divergência do que afirmo, quando defendo a gestão de projetos, é a de que “estamos jogando tudo pro lado”, redefinindo exatamente o que faremos de maneira nova e, desta forma, o realizado não deve ser considerado. A proposta é até válida como motivação, mas vou trazer algumas observações.
Primeiramente, saber exatamente do que se está buscando rever, afastar, mudar. Se vamos “jogar longe” as formas arraigadas e consideradas obsoletas, como saber se estamos mesmo fazendo diferente? Como determinar exatamente a fonte dos problemas, erros, limitações e demoras que nos fazem agora pensar na inovação proposta? As teorias mais clássicas de gestão da inovação e gestão do conhecimento não formulam o desprezo pelo que já foi feito, mas sua correta determinação, principalmente para saber o que se propõe a fazer.
Por exemplo, na busca de um novo método para ofertar valor a um cliente – por exemplo, com a servitização de uso de um produto (assinatura de carros, locação de imóvel por período curto, uso compartilhado de bem material, etc.) é muito importante saber o comportamento típico de clientes e as regras que regem o mercado, para definir com exatidão uma proposta diferente, disruptiva. Além disso, vale sempre chamar a atenção para os riscos enfrentados, pois pode haver alguma repetição de fatos do ambiente de negócios, como falhas na apreciação de mensagens de comunicação, mau uso de canais de atendimento, entre outros.
Adicionalmente, numa prática onde a gestão de pessoas poderá ser o fator decisivo, digo aos meus contatos que especular em termos de tecnologia não faz mal. Quem nunca adquiriu aquela versão do produto ou serviço para “um teste” ou “experimentar”. O problema é sair (figurativamente) com o sapato novo, de um tipo que nunca foi usado, para uma festa, praticar uma corrida ou mesmo para uma viagem. E se falhar?
Daí uma boa recomendação é ter um grupo, um setor, um squad ou equipe interorganizacional, que ataque a nova tecnologia para conhecer a tecnologia. Para dominar o recurso ou serviço em si, ainda que não totalmente alinhado com os objetivos do negócio. Aí este conhecimento poderia ser compartilhado com os profissionais de áreas de negócios da empresa (comercial, financeiro, marketing, serviços, etc.) – começando a trilha onde a gestão de pessoas pode ter resultados muito expressivos – buscando uma comunicação que relacione o conhecimento organizacional do recurso tecnológico aos objetivos de negócios.
A frente de trabalho da gestão de pessoas segue em ter-se um grupo, o que “especula”, sem necessariamente estar focado em gerar resultados imediatos para o negócio, mas orientado a conhecer melhor as tecnologias, a “experimentar o novo calçado”, a desvendar os recursos. O relacionamento deste possível grupo com o ambiente de produção é algo delicado, considerando remunerações, premiações, desenvolvimento de carreiras e objetivos. Mas, desde que funcione, a tendência é que cada vez contribua no alinhamento de tecnologias para os resultados previstos, planejados ou mesmo ofertando perspectivas de novas formas de agregação de valor.
Tens experiências como estas que gostaria de narrar? Vamos discutir?