O impacto invisível da IA: a nova lógica dos cargos de entrada

‎Por Eduardo Marçal
Pessoas no escritório

Por décadas, os cargos juniores serviram como porta de entrada no mercado.
Eram os degraus mais baixos da escada corporativa: revisar relatórios, compilar dados, apoiar quem tomava decisões.
Eram tarefas repetitivas, mas nelas se aprendia o ritmo, a linguagem e a cultura de uma profissão.

Com a chegada da IA generativa, esses degraus estão desaparecendo.
Pesquisas recentes (Hosseini & Lichtinger, 2025) mostram que, desde 2023, empresas que adotaram IA reduziram drasticamente a contratação de juniores, enquanto aumentaram a de seniores.
O corte não veio de demissões, e sim da queda nas contratações de entrada.
Em setores como varejo e atacado, as empresas contrataram quase 40% menos juniores.

O que isso nos diz?
Que as tarefas típicas de início de carreira, rotineiras, porém cognitivamente exigentes, já estão sendo substituídas por sistemas de IA.

O viés invisível da pesquisa

Mas vale uma ressalva importante.
O próprio estudo de Hosseini & Lichtinger (2025), apesar de robusto, carrega um viés estrutural: observa um fenômeno ainda em transição, no qual os dados não capturam a reconfiguração real dos papéis.

Quando uma tecnologia muda o trabalho mais rápido do que os indicadores conseguem medir, é natural que as conclusões pareçam mais definitivas do que realmente são.

Além disso, a correlação entre adoção de IA e queda nas contratações juniores não implica causalidade direta.
Pode refletir, em parte, um ajuste macroeconômico pós pandemia, mas também mudanças demográficas, como a menor entrada de jovens no mercado, pressões por eficiência em estruturas enxutas e a migração de tarefas cognitivas para modelos híbridos homem máquina, que reduzem a necessidade de funções puramente operacionais.

Em outras palavras, talvez o fenômeno observado não seja a IA “roubando” vagas de entrada, mas as empresas redesenhando o que significa começar uma carreira.

As consequências estruturais

Isso gera uma consequência dupla:

  • As universidades estão sob pressão. Já não basta ensinar a teoria; espera-se que formem profissionais “semi-seniores”, fluentes em IA e prontos para entregar valor imediato. O que antes era aprendido no chão corporativo agora precisa ser antecipado na sala de aula.
  • As empresas vão contratar menos braços e mais mentes prontas. O recém-formado deixa de ser visto como aprendiz e passa a ser cobrado como alguém capaz de gerar impacto desde o primeiro dia.

Estamos diante de uma redefinição de “júnior”.
Ele já não é o executor de tarefas repetitivas, e sim o profissional que chega sabendo usar IA como alavanca, com maturidade suficiente para dar saltos mais rápidos.

A provocação é clara: como preparar as próximas gerações para um mercado que exige maturidade antecipada, mas oferece cada vez menos espaço para amadurecer?

Eduardo-A.-Marçal_1910

CONSELHEIR@

Eduardo Marçal

É formado em Engenharia de Produção pela UFSC com graduação sanduíche na University of Ulsan na Coreia do Sul. Tem experiência em projetos de transformação, atuando na América do Norte e América do Sul em energias renováveis, varejo, agronegócio e bens de consumo.

Atualmente, trabalha na Atlas Renewable Energy, liderando iniciativas de transformação a nível global, resolvendo desafios que emergem da interseção entre pessoas, processos e tecnologia.

Nas horas vagas, divide seu tempo entre leitura, escrita, contrabaixo e corrida de rua.