COMO O BRASIL CAMINHA DA CURIOSIDADE À ORQUESTRA RUMO À ERA DOS AGENTES DE IA?

‎Por Gustavo Ferreira

No primeiro artigo, falei sobre a superficialidade da adoção da inteligência artificial nas empresas: líderes fascinados pela tecnologia, mas incapazes de transformá-la em valor real. Hoje, o cenário começa a mudar. O Brasil, mesmo distante dos grandes polos globais de inovação, já figura entre os países que mais utilizam IA no dia a dia.

Mas há um ponto central: usamos muito, compreendemos pouco e orquestramos quase nada.

Segundo o relatório “Connecting with the AI Consumer”, da Kantar (2025), 46 por cento dos brasileiros afirmam usar ferramentas de IA diariamente, colocando o país entre os três maiores usuários do mundo, atrás apenas de Índia e China. O estudo também mostra que 76 por cento dos consumidores que já tiveram contato com assistentes de IA os utilizam semanalmente ou todos os dias.

Os números revelam crescimento, mas não maturidade organizacional.

QUANDO A INTERNET CHEGOU (E QUANDO A IA CHEGOU PARA NÓS)

Lembro da primeira vez que a internet chegou à minha casa, por volta de 1995. Foi praticamente um evento. Recebi uma revistinha com pouco mais de sessenta sites para navegar. Era a época em que eu perguntava aos colegas da escola quem ia entrar no Mirc ou no ICQ à noite.

Hoje, ninguém pergunta se vai “entrar” na internet. Vivemos nela. Ela é parte da nossa rotina, invisível e inevitável.

A inteligência artificial está no mesmo caminho.

No Brasil, usamos IA para escrever textos, gerar imagens, traduzir documentos e responder perguntas triviais. Mas ainda vivemos o que chamo de fase da revistinha: poucas ferramentas, muito fascínio e pouca integração.

Estamos conectados à IA, mas ainda não vivendo através dela.

A INEVITABILIDADE DA INTEGRAÇÃO E O CONTRASTE GLOBA

Enquanto no Brasil discutimos a adoção de chatbots e ferramentas pontuais, China e Estados Unidos já vivem a era da integração plena.

Na China, a IA está profundamente enraizada na manufatura, logística, cidades inteligentes e agricultura. Modelos generativos alimentam robôs industriais, veículos autônomos e cadeias de suprimentos inteligentes. O país não fala em adotar IA, ele opera com IA.

Nos Estados Unidos, a IA coordena centros de atendimento, automação corporativa e diagnósticos de saúde assistidos por algoritmos.

Na Índia, mais de 60 por cento dos profissionais afirmam usar IA diariamente, segundo a Kantar.

Esses países não tratam IA como ferramenta, mas como infraestrutura cognitiva.

Já no Brasil, o uso é intenso, mas fragmentado: soluções isoladas, pouca integração entre áreas, ausência de padronização de dados e visão limitada de ecossistema.

A IA ainda está no balcão, não no comando.

O NASCIMENTO DA ORQUESTRA DIGITAL

Nos últimos anos, tenho observado essa transformação de perto. A IA vem migrando de recurso isolado para parte viva das operações.

Não falamos mais de um único assistente que faz tudo, mas de múltiplos agentes especializados, cada um com função clara dentro de um ecossistema integrado:

• um interpreta dados financeiros
• outro analisa chamados de suporte
• outro prevê gargalos operacionais
• outro sugere decisões estratégicas

Todos conectados em um painel inteligente que permite ao gestor enxergar o todo.

Segundo o “AI Agents Market Outlook – Brazil”, da Grand View Research (2025), o mercado brasileiro de agentes de IA foi estimado em 237,4 milhões de dólares em 2024 e pode alcançar 2,41 bilhões até 2030, com crescimento anual médio de 47,9 por cento.

Mesmo assim, poucas empresas têm ecossistemas multiagente capazes de aprender com o contexto e recomendar ações em tempo real.

Essa é a nova realidade da gestão: a IA deixa de responder e passa a orquestrar.

O NOVO PAPEL DOS LÍDERES: DO USUÁRIO AO ARQUITETO

Apesar do uso crescente, muitos profissionais brasileiros ainda têm compreensão técnica limitada sobre IA. Isso expõe o abismo entre entusiasmo e entendimento.

O papel das lideranças mudou. Não basta usar IA. Agora, é necessário projetar ecossistemas inteligentes:

• definir papéis entre agentes
• criar fluxos
• garantir aprendizado contínuo
• integrar áreas e dados

O gestor do futuro não será quem mais usa IA, mas quem melhor conecta inteligências.

CONCLUSÃO: O INEVITÁVEL (E O NOSSO MOMENTO)

O Brasil já faz parte do mapa global da inteligência artificial. Estamos entre os maiores usuários do mundo, produzimos ciência de ponta e começamos a consolidar nossa indústria de agentes digitais.

Mas ainda há longo caminho até deixarmos de ver a IA como aplicativo e passarmos a tratá-la como estrutura viva de gestão.

Se no primeiro artigo falei do uso errado da IA, este fala do uso inevitável e transformador — com os pés no presente brasileiro.

O que vemos hoje não é futuro: é o presente pedindo execução.

A internet nos conectou.
A IA nos ampliará.

FONTES CONFIRMADAS

• Kantar (2025) – “Connecting with the AI Consumer”
• Grand View Research (2025) – “AI Agents Market Outlook – Brazil”
• The National Bureau of Asian Research (2024) – “Outlook for China’s AI Industry Adoption and Applications”
• Agência Brasil (2025) – “Brasil entre os países que mais usam inteligência artificial no mundo”
• eCommerce Brasil (2025) – “Uso de assistentes de IA cresce e já faz parte da rotina de 76 por cento dos consumidores”
• Kantar Brasil Portal (2025) – “76 por cento dos consumidores usam assistentes de IA semanal ou diariamente”

Gustavo-Ferreira

CONSELHEIR@

Gustavo Ferreira

Fundador e CSO na FindUP, uma empresa que transforma o Service Desk e o Field Service no Brasil por meio de soluções tecnológicas inovadoras. Meu trabalho é focado em estratégia de produto, automação e inteligência artificial, com o objetivo de resolver os desafios mais urgentes dos clientes de forma eficiente e escalável.