Como uma estratégia de IA pode impulsionar a solução dos desafios estratégicos da organização?

‎Por Fernando Mitkiewicz

A transformação digital nas organizações públicas e privadas depende cada vez mais de tecnologias emergentes, sendo a inteligência artificial um dos principais vetores dessa mudança. No entanto, o sucesso de sua implementação depende de um fator crítico: o alinhamento com os desafios estratégicos da instituição. A recente publicação da Política de Inteligência Artificial (PIA) e da Estratégia de IA da ANAC, formalizada pela Instrução Normativa nº 209, de 10 de março de 2025, exemplifica como um planejamento estruturado pode garantir que a adoção da IA esteja alinhada com objetivos institucionais, promovendo eficiência, segurança e inovação.

A importância de uma estratégia de IA bem definida vai além da simples adoção de tecnologias avançadas. Sem um direcionamento claro, projetos de IA podem se tornar iniciativas isoladas, sem impacto significativo nos desafios reais da organização. A abordagem adotada pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) demonstra como uma governança eficiente da IA pode ser um diferencial competitivo, trazendo benefícios como a melhoria da qualidade das entregas, suporte à tomada de decisão, otimização da experiência dos usuários e elevação dos padrões de segurança.

Inteligência artificial como ferramenta estratégica e não apenas tecnológica

A IA deve ser vista como uma ferramenta para resolver desafios estratégicos, e não apenas como uma inovação tecnológica implementada sem um propósito claro. A Estratégia de IA da ANAC estabelece diretrizes que garantem que a adoção da IA seja transparente, ética, segura e alinhada aos objetivos da organização. Isso significa que cada aplicação da tecnologia deve estar conectada a um problema real e contribuir para melhorias tangíveis na operação da agência.

Por exemplo, a IA pode ser utilizada para reduzir gargalos administrativos, melhorar a fiscalização da aviação civil e agilizar processos de certificação e licenciamento. Entretanto, sem um planejamento estratégico adequado, esses projetos podem resultar apenas em experimentos de curto prazo, sem impacto duradouro. A abordagem adotada pela ANAC busca garantir que cada iniciativa esteja integrada ao planejamento institucional e que sua implementação seja monitorada para avaliar sua eficácia e impacto.

A governança da IA como elemento essencial para segurança e eficiência

A governança da IA é um dos pilares fundamentais da Estratégia de IA da ANAC. O documento estabelece que a implementação de sistemas de inteligência artificial deve seguir uma estrutura clara de supervisão e controle, garantindo que a tecnologia seja utilizada de forma ética, responsável e eficiente.

Dentre as diretrizes da política, destaca-se a necessidade de supervisão humana constante, garantindo que as decisões tomadas por sistemas de IA sejam explicáveis e rastreáveis. Isso é essencial em um setor altamente regulado como o da aviação civil, onde a transparência e a previsibilidade são fatores críticos para garantir a segurança.

Outra medida de governança tomada foi a criação do GDAI – Grupo de Desenvolvedores de Inteligência Artificial, que irá promover a descentralização e escalonamento governando e seguro da capacidade de desenvolvimento de agentes de IA.

Além disso, a política prevê a identificação e mitigação de riscos, como viés algorítmico e alucinações da IA, que podem comprometer a confiabilidade das informações geradas pelos sistemas. A presença de mecanismos de controle, como auditorias e avaliações contínuas, assegura que a IA seja utilizada para fortalecer os processos internos, e não para criar novos desafios.

A IA como aliada na melhoria da experiência dos usuários

Outro aspecto crucial da estratégia da ANAC é o uso da IA para otimizar a experiência das pessoas e das organizações que interagem com a agência. Ferramentas baseadas em IA podem ser aplicadas para automatizar respostas a dúvidas frequentes, agilizar processos de atendimento e fornecer recomendações personalizadas, reduzindo a burocracia e aumentando a eficiência dos serviços prestados.

A implementação de agentes de atendimento, por exemplo, irá diminuir o tempo de espera para respostas a questionamentos regulatórios. Da mesma forma, sistemas de IA podem auxiliar na análise preditiva de riscos operacionais, fornecendo insights valiosos para a tomada de decisão, tanto dentro da agência quanto para os regulados.

Quando bem planejada, a IA pode se tornar um diferencial estratégico para órgãos públicos, facilitando o acesso à informação, melhorando a qualidade dos serviços e garantindo maior transparência na comunicação com os usuários.

A importância da capacitação contínua para a implementação bem-sucedida da IA

Um fator-chave para o sucesso da Estratégia de IA da ANAC é a capacitação de sua equipe. O Núcleo de IA, coordenado pela Superintendência de Tecnologia e Transformação Digital, contou com a participação de profissionais de diferentes áreas, garantindo que a implementação da IA levasse em consideração não apenas aspectos técnicos, mas também implicações regulatórias, operacionais e estratégicas.

Esse investimento na formação dos colaboradores reflete uma tendência essencial para qualquer organização que deseja adotar a IA de maneira eficaz. A inteligência artificial não pode ser tratada como uma tecnologia restrita ao setor de tecnologia; ela deve ser compreendida por todas as áreas da organização, garantindo que sua aplicação seja feita de forma estratégica e alinhada aos objetivos institucionais.

Monitoramento contínuo e adaptação da estratégia

A Estratégia de IA da ANAC não é um documento estático. Sua governança prevê um monitoramento constante dos resultados dos sistemas de IA, permitindo ajustes conforme necessário para garantir que a tecnologia continue gerando valor para a organização.

Esse modelo de aprendizado contínuo é essencial para qualquer estratégia de IA bem-sucedida. O cenário tecnológico está em constante evolução, e novas ferramentas e abordagens surgem regularmente. Organizações que conseguem adaptar suas estratégias de IA com base em métricas reais de desempenho têm mais chances de alcançar resultados sólidos e sustentáveis.

Portanto, a publicação da Política e da Estratégia de Inteligência Artificial da ANAC evidencia a necessidade de adotar a IA com um propósito estratégico bem definido. Dessa forma, mais do que simplesmente implementar tecnologias avançadas, é fundamental que cada aplicação esteja alinhada a objetivos claros, a fim de resolver desafios reais da organização.

Além disso, para que a IA se torne um diferencial competitivo e não apenas uma tendência passageira, é indispensável que haja uma governança estruturada, uma supervisão contínua e um foco na experiência do usuário. Desse modo, as organizações que seguem esse modelo estruturado não apenas impulsionam a inovação, mas também aprimoram a eficiência operacional e elevam a qualidade dos serviços oferecidos.

Por conseguinte, assim como a ANAC, outras instituições podem se beneficiar de uma abordagem estratégica para a IA, visto que essa tecnologia, quando bem aplicada, permite transformar desafios em oportunidades de crescimento sustentável. Sendo assim, se sua empresa deseja explorar o potencial da inteligência artificial de maneira planejada e alinhada aos seus objetivos estratégicos, o momento de agir é agora.

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CONSELHEIR@

Fernando Mitkiewicz

Líder em estratégia, inovação e transformação digital, foi Secretário de Governo Digital do Brasil, quando comandou a revolução digital do setor público, levando o país à vice-liderança mundial em maturidade digital e tornando o GOV.BR uma referência internacional. Reconhecido com cinco prêmios iBest, TOP50 Executivos de IA, Prêmio Agilidade Brasil e Mais Admirado Líder Digital em 2024, atualmente, como CIO da Anac, está revolucionando os serviços digitais da Agência com Startups internas, SuperApp e a adoção estratégica de IA. Também é professor na Faculdade Mackenzie Brasília e conselheiro da Rede Líderes Digitais. Presidiu o Conselho do SERPRO, foi Conselheiro da DATAPREV e liderou a digitalização do Ministério da Infraestrutura, garantindo 100% de digitalização e a melhor Governança de Plano Digital do governo. No setor privado, atuou em cargos de gestão nas áreas de inovação, marketing, vendas e gestão de projetos em empresas de telecomunicações e consultoria. No campo acadêmico, é Engenheiro Eletricista, com MBA em Gestão Estratégica de Marketing e especialização em Gestão da Inovação pela escola de negócios alemã Steinbeis, acumulando também publicações científicas na área de inovação e tecnologia.

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